terça-feira, 25 de novembro de 2014

O Conflito para Krishnamurti

Coisas que nos inspiram e nos fazem parar e reflectir, partilho aqui a razão do meu apreço por este livro e pela visão de Cecília Ramos Mejía sobre a mediação em contexto escolar. Porque precisamos de ir além do óbvio e de alargar o nosso "mapa" da percepção do conflito. "mapa não é território". Façamos uma viagem diferente para pensarmos sobre o conflito.

(Traduzido e adaptado de "Un mirar, un decir, un sentir en la mediación educativa", de Cecília Ramos Mejía)

«No seu livro "Medo, prazer e dor" Krishnamurti fala sobre este tema, partindo do facto de que parece que vivemos rodeados por todo o tipo de conflitos, desde guerras horríveis até conflitos quotidianos de aparente menor importância. parece, assim, que teríamos de resignar-nos a viver , sempre, no meio do conflito.
Costumo ler, sempre que abro um livro sobre mediação (por exemplo) que o conflito faz parte da vida e que é inevitável, em consequência da diversidade. Cecília Mejia afirma gostar de acrescentar que "é quase inevitável", se acreditarmso que o ser humano ainda se encontra num processo evolutivo.
Para Krishnamurti, o conflito deriva do desejo. O ser humano encontra-se sujeito a desejos de todo o tipo, mas fundamentalmente, no fundo  da razão para todos os desejos reside o prazer. No entanto, do outro lado da moeda encontra-se o medo de perder o objecto de prazer, seja este do tipo que for (melhoria económica, paz espiritual, feito intelectual, reconhecimento emocional...).
Parece que quando conseguimos alcançar o objecto do nosso desejo, surge imediatamente o medo de não o podermos conservar ou de o perder. Quando não podemos obter o que nos dá prazer surge a dor. "É a natureza do desejo que conduz inevitavelmente ao conflito. Na própria natureza do desejo há contradição". Se não houvesse desejo, não haveria conflito. Mas não é o desejo em si que causa o conflito, antes o não ter consciência do que nos acontece: não perceber a contradição que existe na natureza do desejo. Vivemos aprisionados nas nossas próprias contradições e isto acontece sem nos darmos conta. "Vivemos em estado de contradição": penso "isto, mas queria pensar "aquilo"; acredito na fraternidade entre os povos, mas sou nacionalista; aceito a existência de outras religiões, mas apenas a minha é a verdadeira. Estas contradições (e outras) encontram-se nas raízes do conflito e podem chegar a manifestar-se através da guerra.
Krishnamurti vai mais além da análise convencional do conflito. Não se trata de o compreender intelectualmente, mas de o olhar e o perceber a partir do seu centro, da sua própria natureza.
Podríamos falar aqui de um processo:
- Percebemos (percepcionamos) através dos sentidos;
- produz-se uma sensação;
- ocorre um pensamento (um julgamento);
- origina-se o desejo (de conservar o prazer ou de evitar a dor);
- surge o conflito como consequência da contradição entre querer conservar ou perder.
O que fazer? como nos podemos livrar deste processo (o que implica já em si uma contradição, que alimenta o conflito)?
O pensamento é a resposta da mamória e esta está fragmentada, portanto, quando actua sobre esta contradição gera mais contradição. Trata-se de ver o processo com total inocência, como um facto mais, sem julgamentos. E não há contradição, pois não há desejo de o mudar, está alí e não faço nada, apenas o vejo e deixo que siga o seu percurso.
Quando se ensinam métodos de "gerir" a fúria, aplicando metodologías para fazer algo com ela, parece nao bastar. "Aquilo a que resistimos, persiste"
Por isso, poder primeiro reconhecer num conflito que se sente no corpo; colocar a seguir um nome à emoção sentida e finalmente estar com ela até que se desvaneça, ou seja, sem dizer que foi outro que a causou, ou que é boa ou má, ou tentar aplicar métodos para ignorar, controlar ou obstar a à presença da emoção. Apenas simplesmente "estar" e deixar que a natureza faça aquilo que normalmente faz.
Sei que esta abordagem do conflito através da aprendizagem do estar com e aceitar tal qual são as emoções que sentimos, pode parecer um caminho mais difícil para a gestão de conflitos.
Podemos sempre reflectir sobre o que a educação convencional faz com as nossas emoções: não podemos zangar-nos e demosntrá-lo, muito menos sentir ódio, inveja ... e ao querermos que isto não exista, permitimos que essas emoções se fortaleçam ainda mais e se expressem das formas menos pensadas e talvez mais destrutivas.»

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Ainda no Lastro de Com///Vivências: Práticas Restaurativas nas Escolas



Disciplina e Punição:
porquê e para quê uma opção restaurativa?

Trabalhar com procedimentos restaurativos é uma forma de estar e ser, que é igualmente exigente no cumprimento das normas de comportamento (estabelecimento de limites e de pressão para o seu cumprimento) e justo no que se refere a apoiar (cuidar) crianças e jovens em desenvolver comportamentos e competências socias que promovam relações interpessoais positivas e cooperativas e garantam uma convivência segura. (Thorsborne & Blood, 2013).1
Howard Zher (2007)2 chama a atenção para algumas razões pelas quais há problemas com os sistemas punitivos:
  • Existe o risco de que os infractores venham simplesmente a ficar zangados com aqueles que os punem. [A punição, traduzida na aplicação de uma sanção ou consequência negativa, “cria um clima de medo e o medo produz raiva e ressentimento” - nas palavras de Alfie Kohn (2000)3 ].
  • A ameaça da punição leva, muitas vezes, à negação da responsabilidade (invocando inocência, ou pura e simplesmente mentindo), a arranjar desculpas e justificações, ou mesmo a minimizar o dano causado (podem aguentar, ninguém se magoou).
  • O infractor não é encorajado a empatizar com a vitima, visto que não há um processo de aproximação.
  • A punição não vai até às causas do comportamento, não se debruça sobre a raiz do problema.4
Existem um sem número de estudos, bastante convincentes e fundamentados, que demonstram que a punição, por si só, é contraproducente porque não permite criar um clima de saudável relacionamento na comunidade escolar, produzindo antes um sentimento de desconexão e afastamento do ambiente escolar. O impacto deste sentimento de desconexão em algumas crianças e jovens pode levá-las a magorem-se a si mesmas ou a magoar outros, a assumir comportamentos de risco em que se põe a si e ao grupo em perigo.
Isto poderá ser mais comum em crianças que já vivem nas suas vidas múltiplas situações de stress ou trauma, sendo que a punição contribui para aumentar este stress, o que é bem evidente naquelas crianças que facilmente explodem e manifestam emoções de raiva e fúria quando de algum modo são desafiadas em função do seu comportamento.
Se o objectivo da punição é a mudança de comportamento, não parece que esta o consiga, aliás em algumas situações torna-o mais rígido e fixo. Talvez porque o objectivo da punição e dos sistemas retributivos é o de repor a norma violada, sanciona-se a pessoa que violou a norma que garante o funcionamento do grupo, da comunidade; ao invés dos sistemas restaurativos que focam o seu objectivo na reparação do dano causado à pessoa, na responsabilidade pelo comportamento e pelas consequências que este provocou no outro.

Esta assunção põe em confronto dois paradigmas, o da Justiça Retributiva e o da Justiça Restaurativa.

Justiça Retributiva
Justiça Restaurativa
Crimes e delitos são violações de leis/normas/regras que não foram cumpridas.
Crimes e delitos são violações das relações interpessoais: Quem foi magoado? De que forma?
A culpa deve ser atribuída: quem fez isto?
As obrigações devem ser reconhecidas: quais são estas?
A punição deve ser imposta: o que é que merecem?
Como pode o dano ser reparado?
Fig. Tabela daptada de Howard Zehr (2002)5

A justiça retributiva tende a isolar o ofensor/infractor de qualquer ligação ou contacto com aquele ou aqueles a quem causou dano, não proporcionando um espaço ou contexto de resolução de problemas entre eles. É o Estado ou a instituição que assume a responsabilidade da decisão sobre a sanção a ser aplicada.
Numa abordagem com base na justiça restaurativa para resolver o problema, ofensor e ofendido, agressor e vítima são envolvidos num processo de diálogo que explora o que aconteceu, que dano foi causado e em conjunto tomam decisões sobre como vão agir no futuro e o que é necessário que aconteça para reparar o dano causado (ainda que dentro dos limites impostos pelo quadro legislativo às suas decisões.

Citando Ted Wachtel, Presidente do International Institute for Restorative Practices:
Uma das principais suposições da nossa sociedade sobre a punição é a de que esta torna os ofensores responsáveis. No entanto, para um estudante ofensor (agressor) a punição é uma experiência passiva, que exige pouca ou nenhuma participação. Enquanto o professor ou o Director chamam a atenção, ralham e impõem a sanção, o estudante permanece em silêncio, ressentido com a figura de autoridade, a sentir-se zangado e como se ele fosse a vítima. O aluno/ofensor não pensa nas reais vítimas da sua agressão ou nos outros indivíduos que foram adversamente afectados pela sua conduta. Então, estamos a tornar este estudante responsável?
Fazer coisas a um estudante ofensor, apenas leva à sua alienação. Precisamos de fazer coisas com ele. Precisamos de o envolver num processo activo que o torne verdadeiramente responsável. Simultaneamente, queremos construir relações positivas entre o estudante e aqueles que foram afectados pelo seu comportamento.
(…) A abordagem restaurativa à disciplina social expande as nossas opções para além do tradicional continuum punitivo-permissivo.”6

(...para continuar...)

1Ver, infra, a “janela da disciplina social” de Ted Wachtel.
2In Thorsborne & Blood (2013), op. Cit. Pág. 24
3In Thorsborne & Blood (2013), op. Cit. Pág. 24
4Sobre esta questão, propomos a leitura da obra de Alfie Kohn (2006) Beyond Discipline: From Compliance to Community. ASCD, Alessandria.
5In Thorsborne & Blood (2013), op. Cit. Pág. 20

6Wachtel, Ted (1999) “Restoring Community in a Disconnected World” (adapted from “Restorative Justice in Everiday Life: Beyond the Formal Ritual,” a paper presented at the “Reshaping Australian Institutions Conference: restorative Justice and Civil Society,” The Australian National University, Canberra, February 16-18.

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

QUANDO FOR GRANDE, QUERO SER UM BRINCADOR

Eu também

de ÁLVARO MAGALHÃES (14 de Março de 1951)
em “O Brincador”

"Quando for grande quero ser um brincador. Ficam, portanto, a saber: não vou para a escola aprender a ser um médico, um engenheiro ou um professor.Tenho mais em que pensar e muito mais que fazer.Tenho tanto que brincar, como brinca um brincador, muito mais o que sonhar, como sonha um sonhador e também imaginar, como imagina um imaginador…A minha mãe diz que não pode ser, que não é profissão de gente crescida.E depois acrescenta, a suspirar: ” é assim a vida “.Custa tanto acreditar! Pessoas que são capazes, que um dia também foram raparigas e rapazes, mas já não podem brincar.A vida é assim? Não para mim. Quando for grande, quero ser brincador.Brincar e crescer, crescer e brincar, até a morte vir bater à minha porta.Depois também, sardanisca verde que continua a rabiar depois de morta.Na minha sepultura, vão escrever:” Aqui jaz um brincador. Era um homem simples e dedicado, muito dado, que se levantava cedo todas as manhãs, para ir brincar com as palavras"

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Semear para colher.

A Mediação de Conflitos em Contexto Escolar é uma das minhas áreas de trabalho favoritas. Semear para colher. Não se trata aqui de pensar na mediação como um processo que vai alterar a disciplina em contexto escolar. Do que se trata é de introduzir uma filosofia de diálogo e de resolução de problemas que perpassa toda a cultura organizacional e relacional da Escola e da Escola com a comunidade.

Por isso, considero também muito importante introduzir "práticas restaurativas" dentro das comunidades escolares. A sustentabilidade de projectos de mediação e de práticas restaurativas em contexto escolar requer uma compreensão intrínseca de que estas não são mais do que instrumentos para a gestão de comportamentos dos alunos. Introduzir uma "disciplina" restaurativa na escola, implica criar uma nova cultura de escola que perpassa todos os aspectos relacionados com a organização escolar, bem como as relações escola/comunidade, escola/familia.

Deixo aqui duas sugestões de leitura que me inspiram continuamente a manter este caminho e em cultivar novas formas de diálogo para trabalhar a indisciplina.