terça-feira, 1 de dezembro de 2015

(Re)Pensar a Prática da Mediação … em estilo de Reflexão

O Advogado na Mediação? … Pensando o profano no silêncio da escrita – parte 2

David A. Hoffman, num fabuloso artigo, “Paradoxes of Mediation” (publicado no Livro Bringing Peace into the Room) afirma o seguinte: “According to Zen Buddhism, one way enlightenment can be achieved is by holding two contradictory thoughts in the mind simultaneously. This, I have found, is more easily said than done. Perhaps I am handicapped in this endeavor by virtue of professional training: as a lawyer my mental functioning has shifted decidedly to the left brain. I know one lawyer-turned-mediator (or, as the joke goes, a recovering lawyer) who describes law school as a process in which the left brain circles around the right brain and eats it.
In this case, learning to practice mediation has presented me with the task of recovering the right-brain function, the place where creativity and nonlinear thinking flourish. Indeed, restoring the balance between the two hemispheres may be necessary to succeed at mediation because the work is inherently difficult, is multidimensional, and requires not only logic but inventiveness.” (2003:167)

Também eu “Advogada-transformada-Mediadora” ou “Advogada em recuperação” me confronto com este desafio. Formatada para pensar como Advogada e depois de mais de uma dezena de anos a praticar com base nessa formatação, começar a pensar como Mediadora de Conflitos é um exercício diário. 
A prática da Mediação exige trabalhar o conflito com uma diferente complexidade.
Aliás, Hoffman soma às capacidades que o mediador deve desenvolver para ser um mediador eficiente, as seguintes qualidades: alta tolerância à ambiguidade, um gozo especial em funcionar em multitarefa, e uma vontade inata para aceitar a possibilidade de a realidade estar repleta de paradoxos.

Significa isto, apenas, que ser Mediadora é tornar-se Mediadora, num processo contínuo de aprendizagem em que confrontamos os nossos próprios paradoxos.

A Mediação de conflitos é ao mesmo tempo uma ciência e uma arte (nas palavras de Donald T. Saposnek). 

Uma ciência que se baseia em diferentes áreas de conhecimento que permitem trabalhar de forma sistematizada os conflitos interpessoais, através de uma metodologia e um conjunto de princípios que atribuem uma lógica à prática da mediação.

Mas é também uma arte. The art of mediation consists of the intangible, spontaneous, flowing, unpredictable, intuitive aspects of the expertise. Art does not follow the rules of logic but operates more on intuition and feeling. Through the art lens, a problem is viewed holistically, creatively, systemically, and from numerous angles, and the parts are seen in their relationship to one another. One does not gain this view by breaking the problem into teachable steps; instead the view is developed organically. Art demands of the student an intuitive grasp, the gaining of impressions based on emotions, and then a conceptual integration”. (Saposnek, 2003:245)
É esta arte da mediação o seu espaço profano e intangível e, ao mesmo tempo, o espaço de encontros, de descobertas, de desenvolvimento, de escuta, de compaixão. Há uma frase que uso em formação, quando começando a difícil prática da mediação peço às minhas alunas para escutarem a sua intuição, para prestarem atenção às suas entranhas, pois a próxima pergunta, a orientação para o caminho a seguir virá de dentro de si, daquela especial sensação no estômago e no peito, que (por vezes) aperta a garganta.

Assim, o mediador terá de alterar a sua forma de pensar e refletir sobre o conflito, como refere Saposnek (2003:247), de um pensamento analítico, lógico, racional e linear e orientado para a tarefa, para um pensamento mais intuitivo, emocional, metafórico e até holístico. Adotando uma perspetiva sistémica, que o leva a perceber o conflito e os seus intervenientes respeitando as suas histórias, os seus papéis, os seus valores e os seus contextos. E não apenas como duas partes em oposição, em que de um lado estará a verdade, um certo e um errado, um direito que prevalece em detrimento de outro. 
O enquadramento da mediação é mais amplo e integrador.

Em comparação, o contexto judicial tende a reduzir a amplitude do conflito, a trabalhá-lo de uma forma linear num sistema de causa-efeito, onde o racional impera sobre o emocional, onde não há uma visão sistémica e integradora do conflito, antes se expurga dele tudo aquilo que os operadores do sistema judicial consideram que não deve fazer parte da sua análise e resolução.

Neste sentido, fácil é de perceber que mediadores e advogados trabalham em realidades paralelas. 
Mesmo quando trabalha num espaço de procura e construção de consenso, o advogado trabalha num espaço adversarial, em que apenas representa os interesses do seu cliente num enquadramento jurídico-legal. A mediadora não representa nenhum dos intervenientes no conflito, nem tem particular interesse na sua solução. O seu trabalho define-se, num espaço que é muito sagrado à mediação, pela liberdade das partes. Liberdade que se evidencia pela voluntariedade de usar a mediação de conflitos, até à liberdade de construir um compromisso sem imposição de terceiros.

Como tornar estas realidades paralelas em realidades interativas e inclusivas?
O caminho tem sido, até agora, o da judicialização da mediação, integrando-a nos processos judiciais, desde a área cível (as alterações ao Processo Civil, a Mediação nos Julgados de Paz) até à familiar (a Lei do divórcio e o novo processo tutelar cível). Ainda que a contragosto dos representantes dos advogados e sem que o sistema judicial esteja recetivo e, muito menos, convencido


Deixemos para uma Parte 3 a continuação da reflexão.

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Eu Mediadora me Confesso
Breve introdução à mediação de conflitos e à Magia do Diálogo
Workshop a ter lugar em parceria com a Red Apple, Lda, em Lisboa - 8 e 22 de Janeiro de 2016


(A organização deste workshop levou-me a reflectir. Deixo aqui algumas dessas reflexões feitas em "voz alta". Não são tese nem ciência, nem acto de fé ou de contrição. Apenas pensamentos em letra de imprensa.)

(Re)Pensar a Prática da Mediação … em estilo de Reflexão

O Advogado na Mediação? … pensando em voz alta – parte 1

Há textos inspiradores que nos provocam e geram reflexão. Ao abrir um livro para procurar um texto sobre o advogado na mediação encontrei um outro sobre o “sagrado” e o “profano” no Mundo dos ADR (Alternative Dispute Resolution).
Sara Cobb, num excelente ensaio (Creating Sacred Space, Toward a Second-generation Dispute Resolution Practice) publicado pela primeira vez no Fordham Urban Law Journal (28 Fordham Urb. L.J., 2001, 1017), começa assim: “There have been times, during the course of a mediation, when I have the impression that something happens in the room, something more important that the agreement that is emerging, that the conflict is itself just a vehicle for the creation of something sacred, something whole, something holy. This experience of mine often coincides with confessions on the part of the disputants and a quality of sharing that exceeds the technical boundaries of problem-solving processes; apologies are offered, personal stories exchanged, even pictures of children, grandchildren, and vacation homes appear.”

Alguns de nós, mediadores, tivemos já o privilégio de sentir isto. Quando se cria um espaço de diálogo onde é possível proporcionar alívio, oferecer esperança, obter respeito e reconhecimento, ficamos com esta sensação de que alguma coisa acontece que ultrapassa a procura do acordo, mas que surge no decurso do seu processo de construção. O diálogo que implica a escuta, que não se cinge aos argumentos mas que trabalha os significados, permite criar algo mais que um acordo, um verdadeiro compromisso.

Perante uma lógica mais legalista, silogística, baseada nos argumentos e nos direitos, como explicar que os compromissos são emocionais, os obstáculos (ir)racionais e as partes protagonistas e especialistas do seu próprio conflito?

1. Na verdade, se analisarmos o discurso utilizado pelos mediadores, discurso criador e consequente do discurso jurídico à volta da mediação, encontramos semelhanças com este. Falamos muitas vezes em partes em disputa, em neutralidade e em imparcialidade, na participação equitativa, no foco na solução que deve corresponder a um acordo mutuamente satisfatório. Criámos um conjunto de normas éticas correspondentes a um discurso moral dominante no campo da mediação, que se traduzem por exemplo na limitação temporal do processo (a 3 meses), na obrigatoriedade de um Protocolo de Mediação para se dar início ao processo. Sem esquecer que quando falamos em ADR, traduzimos para o Português como Meios alternativos de resolução de litígios. E não vou discutir aqui a “necessidade” deste alinhamento do discurso da mediação com o discurso dos tribunais, ou de que modo a palavra “litígio” se torna redutora para falar do mundo dos ADR, quando comparada com a palavra “conflito”.
No entanto e apesar do enquadramento jurídico e legal da mediação de conflitos e da aproximação de discursos, não gera o processo confiança no mundo judicial. Aproximámos-nos demais? É o processo ou a figura deste terceiro neutral, o mediador, que não logra obter essa confiança?

2. É corrente no nosso mundo de mediadores e em acções de formação escutarmos:  O mediador gere o processo e as partes o conteúdo; As questões que o mediador faz devem ser feitas numa linguagem neutra, de modo a não interferir ou influenciar o conteúdo; o mediador deve proporcionar aos mediados idênticas oportunidades de participação. E reduzimos, assim, o conflito a interesses e necessidades subjacentes e aos direitos correspondentes.
Mas, é o alcançar de um acordo mutuamente satisfatório que gera o compromisso, ou são os testemunhos partilhados, a empatia gerada, a relação transformada, as histórias contadas e escutadas que permitem novas experiências internas? É mais importante o consenso, pela aproximação de interesses, ou a compreensão gerada sobre as diferenças e sobre o outro?
E, apesar desta aparência de neutralidade legalmente e discursivamente sustentada, mantém-se a desconfiança no processo e traduz-se a neutralidade do mediador em passividade. Parece ser, para o advogado, difícil que o mediador seja mais um profissional e a mediação mais um meio de resolução de conflitos que pode proporcionar ao seu cliente um outro desfecho para os seus problemas.

3. Aliado à legalidade do processo, há ainda um outro discurso (mítico) ligado aos ADR e que surge sempre na publicidade política que legitima a sua legalização: mais baratos, mais rápidos e eficazes, permitindo ainda reduzir o número de processos nos tribunais portugueses, deles retirando as “bagatelas jurídicas” e outras questões que não devem “aborrecer” os Tribunais. Reduzimos os ADR, e em especial a mediação, a um discurso político economicista de supostas vantagens, que não respeita os tempos das pessoas e dos seus conflitos, a importância que estes têm nas suas vidas, que põem em causa a sustentabilidade dos processos (nomeadamente da mediação) e dos seus profissionais e que não tem em conta as relações, os contextos, os valores, as histórias.
E, talvez por isso, porque é barato, rápido e eficiente, custe a advogados e ao sistema judiciário confiar na mediação de conflitos. Barato, rápido e eficaz parece mais um anúncio de fast food do que a divulgação de um serviço que se quer mais próximo das pessoas, em que elas são as protagonistas, em que se pretende proporcionar um espaço de diálogo transformador.

4. Mas este discurso dominante é o espaço “sagrado” da mediação. Onde a experiência de participar num processo de diálogo é reduzida à satisfação com o resultado.
De forma que, quando a Ordem dos Advogados afirma que deve ser obrigatória a presença de advogados que acompanhem as partes, para garantir a legalidade e a defesa dos seus direitos e a imparcialidade no processo, não me parece estranho. Afinal, tudo o que temos vindo a fazer é a judicialização da mediação de conflitos. O que estranho é porque exige a Ordem dos Advogados a presença destes num processo em que não confiam e de que forma é que a sua presença o torna mais confiável.


E, falando do sagrado, parece tornar-se imperioso falar do profano…mas, isso, vai ficar para a parte 2.

sexta-feira, 13 de março de 2015



A Federação Nacional de Mediação de Conflitos convida 
todos os interessados na área da Mediação de Conflitos e Justiça Restaurativa a estar presentes com Brian Steels



Dia 16 de Março, pelas 18:00 h nas Instalações da Red Apple (Parque das Nações - Rua Cais das Naus, lote 4.04.02, Loja E)

Dia 17 de Março no Workshop sobre “Círculos Restaurativos” com Brian Steels. Entre as 10:00 e as 17:30 h no auditório da Direcção-Geral da Política da Justiça. Avª. D. João II, n.º 1.08.01 E, Torre H, Lisboa
A Inscrição é gratuita. Agradecemos a manifestação de vontade em estar presentes nos dois ou em um dos eventos através do email: evento.fmc.briansteels@gmail.com

E no dia 24 de Março com a Mediare no Porto.

Agradecemos, ainda a V. ajuda com a divulgação destes dois eventos.

Dr. Brian Steels é investigador nas áreas da reforma penal e justiça restaurativa. Dr Steels é docente da Universidade de Curtin, no Centro de Estudos Indígenas e seu trabalho entre as comunidades aborígenes como investigador e consultor é bem conhecida. Presidente do “Asia Pacific Forum for Restorative Justice”, é membro da Direcção e Coordenador do “Prison Reform Group of Western Australia”.
Livros Recomendados

A terceira alternativa na educação: educar para a liderança. (Stephen R. Covey em "A Terceira Alternativa")
pág. 216 a 218
"Sempre houve, e haverá, homens e mulheres inspiradores que são professores na verdadeira, e na mais nobre, essência da palavra; pessoas que acreditam e que se dedicam a despertar o potencial daqueles que elas guiam. É a essas que devemos a nossa mais profunda gratidão.Contudo, muitas pessoas que exercem a profissão de professor submeteram-se  desconfortavelmente à mentalidade da era industrial e agora ajudam a pertetuá-la. O modelo industrial é evidente na dependência excessiva dos resultados dos exames, em detrimento da própria criança. Ironicamente, apesar de as escolas públicas terem,de certa forma, adoptado o modelo de fábrica e a mentalidade empresarial, a comunidade empresarial está mais descontente do que nunca; as suas queixas não mudaram desde 1927.
Essa mentalidade típica da Wra Industrial, que encara as crianças como produtos, está na raiz do nosso grande desafio educativo.
(...) o modelo educativo controlador da Era Industrial suprime a libertação do potencial humano e simplesmente não resulta na economia da Era do Conhecimento.
(...) Em 1785, o filósofo Jeremy Bentham propôs um novo tipo de prisão denominado "pan-ótico", um edifício inteligente que permitia aos guardas vigiarem constantemente os prisioneiros. Um filósofo moderno, Michel Foucault, via o "pan-ótico" como o símbolo da moderna "sociedade de vigilância", em que vivíamos sob observaçao constante. Basta olharmos para a sala de aula, ou para a "quinta de cubículos" de uma das nossas grandes empresas, e veremos aquilo a que foucault se referia: tanto as escolas como as empresas se assemelham ao pan-ótico. Ele defende que, à medida que a vigilância aumenta, o respeito pela nossa individualidade diminui. A recompensa e o castigo baseiam-se na nossa capacidade para nos calarmos e seguirmos as instruções, e não na forma como oferecemos os nossos talentos únicos como um contributo. Quando orientamos as pessoas para serem lideradas, em vez de liderarem, as oportunidades diminuem e a sociedade sai prejudicada.
A mentalidade presidiária da Era Industrial apodera-se de nós durante os anos académicos, mas influencia a nossa vida inteira e a nossa sociedade.
(...) Poucos pais são suficientemente sagazes para verem que os filhos estão a ser preparados para uma vida de dependência.
Enquanto a educação for sinónimo de treinarmos crianças para serem dependentes, para serem boas seguidoras, jamais começaremos a abordar a esperança que cada criança traz ao mundo. E enquanto os grandes debates continuarem a arrancar folhas da enferma árvore da educação, e a discutirem por causa da melhor maneira de manter o modelo industrial vivo, a raiz cancerígena continuará a crescer sem ninguém reparar nela".

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Livros Recomendados - Implementing Restorative Practices in School (Thorsborne and Blood)

Implementing Restorative Practices in School


A Practical Guide to Transforming School Communities

Margareth Thorsborne and Peta Blood


"Restorative practice is a proven approach to discipline in schools that favours relationships over retribution, and has been shown to improve behaviour and enhance teaching and learning outcomes. However, in order for it to work, restorative practice needs a relational school culture. Implementing Restorative Practice in Schools explains what has to happen in a school in order for it to become truly restorative. Section 1 explains the potential of restorative practice in schools, describing the positive outcomes for students and teachers. It also outlines the measures that need to be in place in order to embed restorative practice. Section 2 examines the process of understanding and managing change, providing realistic and pragmatic guidance on the practical and emotional barriers that may be encountered. Finally, Section 3 provides in eight practical steps, strategic guidance for achieving a restorative culture that sticks. Featuring useful pro formas and templates, this book will be an indispensable guide for educators, administrators and school leaders in mainstream and specialist settings."




MEDIAMUS
tivemos a oportunidade de publicar o seguinte texto

Uma nova Proposta para a resolução de conflitos em contexto escolar
(este texto faz parte de um artigo sobre circulos restaurativos em contexto escolar)


Todos dizem que o rio é violento, Mas ninguém culpa as margens que o comprimem” (B. Brecht)


Actualmente escolas, professores e alunos são pressionados para obterem bons resultados em testes padronizados, aplicados de norte a sul do país, estabelecendo-se um ranking de mérito entre as escolas em função dos resultados obtidos pelos alunos nos chamados testes de aferição.
A pressão para cumprir com o planeado em termos de programa académico, parece deixar pouco tempo para gerir comportamentos de uma forma pedagógica, positiva e eficiente. Gerir emoções e comportamentos, no sentido de proporcionar uma aprendizagem para a sua transformação exige tempo.
Parece que “encher recptáculos de informação” se tornou mais importante do que a reflexão e a aprendizagem de competências sociais e emocionais.
Os conflitos em contexto escolar merecem ser olhados de uma forma educada e educadora, com vista não apenas á sua gestão e resolução, mas também à sua utilização como meio de aprendizagem de competências de resolução de problemas e de exercicio de uma cidadania reflexiva e responsável.
Consequentemente, a introdução de práticas restaurativas para lidar com comportamentos disruptivos, infracções disciplinares e até infracções mais graves, que ocorrem dentro do contexto escolar ou com os seus membros, torna-se na sociedade de hoje uma necessidade cada vez mais premente. Se quisermos pensar numa escola inclusiva, tolerante com as diferenças, responsável pela resolução dos seus problemas, promotora de uma cidadania activa, é urgente introduzir no seu seio meios de gestão e resolução de problemas que humanizem as pessoas e as cuidem, sem deixar de promover a defesa dos valores da comunidade e da reparação efectiva dos danos.
Neste contexto, juntamos à proposta de mediação entre pares, a introdução dos métodos de conversas em círculo e conversas restaurativas.


Disciplina e Punição: porquê e para quê uma opção restaurativa?
Trabalhar com procedimentos restaurativos é uma forma de estar e ser, que é igualmente exigente no cumprimento das normas de comportamento (estabelecimento de limites e de pressão para o seu cumprimento) e justo no que se refere a apoiar (cuidar) crianças e jovens em desenvolver comportamentos e competências socias que promovam relações interpessoais positivas e cooperativas e garantam uma convivência segura. (Thorsborne & Blood, 2013).1
Howard Zher (2007)2 chama a atenção para algumas razões pelas quais há problemas com os sistemas punitivos:
  • Existe o risco de que os infractores venham simplesmente a ficar zangados com aqueles que os punem. [A punição, traduzida na aplicação de uma sanção ou consequência negativa, “cria um clima de medo e o medo produz raiva e ressentimento” - nas palavras de Alfie Kohn (2000)3 ].
  • A ameaça da punição leva, muitas vezes, à negação da responsabilidade (invocando inocência, ou pura e simplesmente mentindo), a arranjar desculpas e justificações, ou mesmo a minimizar o dano causado (podem aguentar, ninguém se magoou).
  • O infractor não é encorajado a empatizar com a vitima, visto que não há um processo de aproximação.
  • A punição não vai até às causas do comportamento, não se debruça sobre a raiz do problema.4
Existem um sem número de estudos, bastante convincentes e fundamentados, que demonstram que a punição, por si só, é contraproducente porque não permite criar um clima de saudável relacionamento na comunidade escolar, produzindo antes um sentimento de desconexão e afastamento do ambiente escolar. O impacto deste sentimento de desconexão em algumas crianças e jovens pode levá-las a magorem-se a si mesmas ou a magoar outros, a assumir comportamentos de risco em que se põe a si e ao grupo em perigo.
Isto poderá ser mais comum em crianças que já vivem nas suas vidas múltiplas situações de stress ou trauma, sendo que a punição contribui para aumentar este stress, o que é bem evidente naquelas crianças que facilmente explodem e manifestam emoções de raiva e fúria quando de algum modo são desafiadas em função do seu comportamento.
Se o objectivo da punição é a mudança de comportamento, não parece que esta o consiga, aliás em algumas situações torna-o mais rígido e fixo. Talvez porque o objectivo da punição e dos sistemas retributivos é o de repor a norma violada, sanciona-se a pessoa que violou a norma que garante o funcionamento do grupo, da comunidade; ao invés dos sistemas restaurativos que focam o seu objectivo na reparação do dano causado à pessoa, na responsabilidade pelo comportamento e pelas consequências que este provocou no outro.
Esta assunção põe em confronto dois paradigmas, o da Justiça Retributiva e o da Justiça Restaurativa.


Justiça Retributiva
Justiça Restaurativa
Crimes e delitos são violações de leis/normas/regras que não foram cumpridas.
Crimes e delitos são violações das relações interpessoais: Quem foi magoado? De que forma?
A culpa deve ser atribuída: quem fez isto?
As obrigações devem ser reconhecidas: quais são estas?
A punição deve ser imposta: o que é que merecem?
Como pode o dano ser reparado?
Fig. Tabela daptada de Howard Zehr (2002)5
A justiça retributiva tende a isolar o ofensor/infractor de qualquer ligação ou contacto com aquele ou aqueles a quem causou dano, não proporcionando um espaço ou contexto de resolução de problemas entre eles. É o Estado ou a instituição que assume a responsabilidade da decisão sobre a sanção a ser aplicada.
Numa abordagem com base na justiça restaurativa para resolver o problema, ofensor e ofendido, agressor e vítima são envolvidos num processo de diálogo que explora o que aconteceu, que dano foi causado e em conjunto tomam decisões sobre como vão agir no futuro e o que é necessário que aconteça para reparar o dano causado (ainda que dentro dos limites impostos pelo quadro legislativo às suas decisões.
Citando Ted Wachtel, Presidente do International Institute for Restorative Practices:
Uma das principais suposições da nossa sociedade sobre a punição é a de que esta torna os ofensores responsáveis. No entanto, para um estudante ofensor (agressor) a punição é uma experiência passiva, que exige pouca ou nenhuma participação. Enquanto o professor ou o Director chamam a atenção, ralham e impõem a sanção, o estudante permanece em silêncio, ressentido com a figura de autoridade, a sentir-se zangado e como se ele fosse a vítima. O aluno/ofensor não pensa nas reais vítimas da sua agressão ou nos outros indivíduos que foram adversamente afectados pela sua conduta. Então, estamos a tornar este estudante responsável?
Fazer coisas a um estudante ofensor, apenas leva à sua alienação. Precisamos de fazer coisas com ele. Precisamos de o envolver num processo activo que o torne verdadeiramente responsável. Simultaneamente, queremos construir relações positivas entre o estudante e aqueles que foram afectados pelo seu comportamento.
(…) A abordagem restaurativa à disciplina social expande as nossas opções para além do tradicional continuum punitivo-permissivo.”6


1In. “a janela da disciplina social” de Ted Wachtel.
2In Thorsborne & Blood (2013), op. Cit. Pág. 24
3In Thorsborne & Blood (2013), op. Cit. Pág. 24
4Sobre esta questão, propomos a leitura da obra de Alfie Kohn (2006) Beyond Discipline: From Compliance to Community. ASCD, Alessandria.
5In Thorsborne & Blood (2013), op. Cit. Pág. 20
6Wachtel, Ted (1999) “Restoring Community in a Disconnected World” (adapted from “Restorative Justice in Everiday Life: Beyond the Formal Ritual,” a paper presented at the “Reshaping Australian Institutions Conference: restorative Justice and Civil Society,” The Australian National University, Canberra, February 16-18.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Parte III - Aplicando a PNL à Mediação.

Para se conhecer a si mesmo, é preciso ser conhecido pelo outro. E para ser conhecido pelo outro, primeiro há que conhecê-lo.”
Thomas Hora

Para poder usar de forma eficiente o metamodelo, é fundamental que o mediador estabeleça um bom rapport.
O rapport é um processo natural, uma sensação de conexão com o outro, uma ligação que faz com que as pessoas na sua interacção se sintam bem como se se compreendessem completamente e tivessem muitas coisas em comum. Podemos chamar-lhe rapport, empatia ou ser perceptivo, entrar em sintonia. A questão é que todos o fazemos, de forma consciente ou inconsciente. No fundo, entrar em rapport é encontrar-se com outra pessoa dentro do seu modelo de mundo.

Esta ligação ou conexão dá-se as vários níveis e implica “calibrar”, “sincronizar” e “dirigir”. Quando um “facilitador da comunicação” (In Ramos Mejía “Un mirar, un decir, un sentir sobre la mediación educativa”) tem dificuldades em estabelecer uma comunicação positiva e eficiente com outra pessoa, pode provocar o rapport, permitindo que o outro se sinta confortável e confiante consigo. O processo de rapport pode passar por vários elementos, as pistas de acesso ocular (o olhar), a fisiologia (a postura corporal), a voz (através do seu ritmo, volume e tom); a respiração e a linguagem. Adoptando uma semelhante postura corporal, um tom, ritmo ou volume de voz, respiração e linguagem (e não necessariamente com todos os elementos ao mesmo tempo), pode-se encontrar um nível de sincronia com a outra pessoa, à qual chamamos rapport.

Chegado a este ponto, o mediador pode “dirigir”, o que significa aqui que pode conduzir a outra pessoa a um estado emocional mais benéfico ou, simplesmente ajudá-la a modificar a sua forma de comunicar, tornando-a mais eficiente e adequada. O rapport dá um novo significado à escuta activa ou, pelo menos, mais alargado, abrindo um novo leque de opções ao “como” escutar activamente.

Para comunicar eficazmente, temos de perceber que somos todos diferentes na forma como apreendemos o mundo e utilizamos esse entendimento como guia para a comunicação com o outro.” Anthony Robbins

Compreender a forma de alguém comunicar implica compreender a forma como percepciona a realidade e comunica sobre ela. Um dos pilares que sustenta a PNL é o Modelo dos sistemas de representação. Diz Carrión Lopez, “Quaquer pensamento que passe pela nossa mente, qualquer ideia que apareça, qualquer recordação que evoquemos ou qualquer fantasia que imaginemo, tudo está construído na nossa mente como uma sequência ordenada de representações procedentes dos órgãos de percepção.” (In Ramos Mejía “Un mirar, un decir, un sentir sobre la mediación educativa” )
Os sistemas de representação referem-se às formas pelas quais assimilamos, armazenamos e codificamos a informação na nossa mente, através dos sentidos (visual, auditivo, cinestésico, olfativo, gustativo – VAKOG). A PNL pressupõe que tudo o que conhecemos, experimentamos, pensamos e sentimos é fruto das nossas representações internas, da forma como construímos a nossa experiência subjectiva a partir das percepções sensoriais. Para qualquer conduta, aprender, recordar, fazer algo, comunicar, utilizamos preferencialmente um desses sistemas sensoriais ou uma combinação entre eles. Daí que os sistemas de representação se podem identificar como:

Sistema de representação primário: é o sistema preferencial
Sistema orientador: sistema preferencial que orienta a informação para a mente consciente
Cinestesia: conjunto de ligações neurológicas entre diversos sistemas, operando simultaneamente.

Os Sistemas de representação apresentam algumas características diferenciadoras:
As pessoas visuais tendem a ver o mundo sob a forma de imagens, atingem maior sensação de poder penetrando na parte visual do cérebro, tendem a falar rapidamente, atribuem palavras às imagens, falam através de metáforas visuais, falam acerca de como as coisas lhes parecem, quais os padrões que vêem e se as coisas parecem brilhantes ou escuras.
As pessoas auditivas são selectivas nas palavras que utilizam, têm vozes mais sonantes, discurso mais lento e ritmado, comedido, são cuidadosas com o que dizem, dizem coisas como: “estou a ouvir o que está a dizer”, “algo no meu cérebro fez clique”.
As pessoas cinestésicas são mais lentas, reagem sobretudo a sensações, as suas vozes são mais profundas, utilizam metáforas para o mundo físico, estão sempre a “agarrar” algo “concreto”, as coisas são “pesadas” e “intensas” e precisam de “estar em contacto” com elas, dizem coisas como: “estou a tentar atingir uma resposta, mas ainda não a consegui agarrar”.

Cada pessoa é única. Mas quando conseguimos identificar qual é o seu sistema preferencial, damos um grande passo no sentido de saber como entrar no seu mundo, de melhor o perceber e de lhe dar a compreender que somos capazes de a perceber a um nível mais profundo: o seu “mapa” passa a fazer parte do nosso “mapa”.

Os sistemas de representação são como uma chave de um código secreto.
Anthony Robbins


A diferença que faz a diferença” em Mediação

O mediador, na sua actividade, tem de desenvolver um conjunto de capacidades pessoais que lhe permitam ser mais eficiente e proporcionar aos mediados uma experiência diferente onde a arte de comunicar e a pedagogia do diálogo para a resolução de problemas assumem um novo e mais importante papel. Na sua “caixa de ferramentas” pessoais “carregará a capacidade de gerar empatia, autenticidade e presença.

A empatia é a capacidade de estar com o outro, de sentir com o outro, “de ir ao encontro de outro indivíduo e de ver o mundo com os seus olhos e o seu coração” (Pink, D.H., 2009. “A Nova Inteligência”), a capacidade de o aceitar como ele é, dentro do seu mapa de valores e de convicções, sem pré-juízos. Entrar no seu mapa do mundo, seja através da sua linguagem, da sua fisiologia e/ou da sua respiração, compreendendo o seu sistema de representação preferencial e estabelecendo rapport.

Estar com o outro e estabelecer com ele uma relação empática implica “ser autêntico”, no sentido de ser congruente. E ser congruente é ser consciente do seu ser e do seu sentir e do modo como se comunica este “ser” e este “sentir” ao outro. Quando o mediador transmite incongruência, deixa de ser autêntico, despertando a desconfiança dos mediados.

Autenticidade e congruência implicam, assim, auto-confiança: “estou bem comigo, com quem eu sou; estou bem com a minha experiência, esta faz parte de mim e de quem eu sou”. Poder transmitir isto em mediação é o primeiro passo para uma boa gestão emocional do conflito. Para ser congruente, o mediador necessita de ter consciência do seu “modelo de mundo”, do seu “mapa”, da forma como percepciona a realidade e comunica sobre ela, de conhecer como modela e utiliza os seus sistemas de representação.

Para estar em mediação, o mediador precisa de ter “presença”, ou seja, estar consciente, atento, focado. Para o mediador, a presença determina a sua capacidade de se orientar no conflito, de saber como e quando agir, que “instrumentos” utilizar. É ser capaz de, em primeiro lugar, compreender o que se está a passar consigo, dentro de si. É ter a capacidade de se aceitar a si mesmo, para aceitar o outro.

A PNL, quando aplicada à mediação e à formação do Mediador, permite a este trabalhar o “foco”, a “auto-consciência”, a “comunicação”. Permite-lhe aprender a entrar num “estado” que lhe proporciona uma utilização mais eficiente dos “instrumentos” de que dispõe (potenciando as suas capacidades pessoais e técnicas).

Há um exercício de preparação que gosto de fazer antes de iniciar uma sessão de mediação. Adaptei-o a partir do texto de Judith DeLozier, “Mastery, new coding and systemic NLP”. Ajuda-me a manter um determinado estado de foco, alerta, congruência emocional, presença e empatia, que passam por manter a qualidade da minha respiração; a postura – fisiologia que permite manter a atenção e gerar empatia; as minhas convicções e representação do modelo, que permite obter um resultado positivo e que inclui um conjunto de valores e princípios da mediação e a linguagem adequada á sua representação.

Proponho-lhe, leitor, que me acompanhe nesta pequena e curta viagem e siga a minha voz: primeiro, estando sentado, coloque-se numa posição de desequilíbio /desconforto, coloque tensão nos ombros e permita que estes se aproximem das suas orelhas. Coloque-se numa típica posição de stress. Observe: como está a sua respiração? Encontra-se num estado que lhe trasmite conforto e lhe permite transmitir conforto a outro? Considera a sua fisiologia/postura própria para desempenhar a sua função de mediador? Como e onde está a sua atenção, o seu foco? Que crenças sobre como mediar e o que é ser mediador encontra em si nesta particular postura/estado?
Agora mude de posição, mova-se ligeiramente, talvez queira levantar-se e voltar a sentar-se. Encontre uma posição confortável e equilibrada para se sentar. Respire profundamente e observe o seu corpo, liberte-se de qualquer excesso de tensão que possa encontrar, respire naturalmente e repita as questões do parágrafo anterior.

Qual o estado/fisiologia mais adequado para conduzir uma sessão de mediação? Qual é a diferença que faz a diferença?

Publicado em Noticias Mediare de Fevereiro de 2015 Faça o aqui o Download da Noticias Mediare

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Programação Neurolinguística - PNL “A diferença que faz a diferença” - Aplicações em Mediação de Conflitos

Parte II - 
Aplicando a PNL à Mediação.

A Comunicação é um enorme guarda-chuva que cobre e afecta tudo o que acontece entre os seres humanos.
Virginia satir

Na mediação é importante que o mediador se coloque num “estado” em que está completamente presente (para os mediados e para a gestão do conflito), está “focado”, é autêntico e congruente na sua comunicação (há concordância entre o seu verbal e o seu não-verbal, entre o seu estado emocional e a forma como dá feedback). O mediador, cuja função é tantas vezes descrita como a de “facilitador da comunicação”, exerce o controlo do processo de comunicação, mas esta apenas existe na interrelação, e é por esta definida. Como dizia Rogers, “qualquer pessoa é uma ilha, no sentido mais concreto do termo; a pessoa só pode construir uma ponte para comunicar com as outras ilhas se primeiramente se dispôs a ser ela mesma e se lhe é permitido ser ela mesma”.

Chomsky afirma que “só 2% da informação contida no padrão de pensamento é perceptível à superfície”. A experiência vivida é diferente da experiência percebida e, por sua vez, da experiência narrada. Os acontecimentos narrados surgem truncados pelos filtros de cada interveniente no conflito/acontecimento, os seus valores, as suas crenças, as suas experiências, o seu conhecimento e contexto, a sua experiência sensorial, o seu estado emocional. A(s) narrativa(s) do que se passou e como aconteceu é naturalmente enviesada.

Importante na construção da narrativa é a estrutura da linguagem. Como “contamos histórias” e as formulamos. Orwell dizia que “se o pensamento corrompe a linguagem, a linguagem também pode corromper o pensamento”. Estabelece-se aqui a importância do metamodelo para trabalhar a linguagem e compreender a estrutura da experiência na narrativa de cada mediado. Neste sentido, o metamodelo de linguagem – metalinguagem da PNL oferece ao mediador um conjunto de técnicas interrogativas, baseadas na comunicação verbal do interlocutor, que permitem uma rápida e melhor compreensão da mensagem, chaves/padrões verbais com os quais se pode iniciar a mudança, a transformação, a motivação, etc ; técnicas e estratégias verbais para aceder à estrutura profunda do sujeito, de modo a identificar a raiz do problema e permitir a sua modificação.

A aplicação do metamodelo em mediação tem, assim, como objectivos: identificar padrões de linguagem, clarificar a informação e compreender melhor o que os mediados dizem; utilizando como metodologia: fazer perguntas sobre o que as pessoas dizem (estrutura de superfície), que conduzem a significados inconscientes ou escondidos (estrutura profunda).

A palavra tem uma forma, um som específico e uma realidade física. Tudo aquilo que possui uma palavra tem um equivalente físico. Todos os pensamentos têm uma acção.
Mewlana Jalalnudi Rami

Ao “fazer perguntas sobre o que as pessoas dizem” o modelo foca-se em três grupos de padrões verbais (In Carrión Lopez, “La Magia de la PNL”)

(1) Generalizações – processos mediante os quais alguns elementos dos modelos com que a pessoa constrói as suas estruturas linguísticas dependem da experiência original e chegam a representar a categoria total. É a capacidade do ser humano de transportar o significado de uma situação para outras situações similares. As generalizações dificultam a criação de novos modelos de visão do mundo, o que impede a criação de novas alternativas e diminui as possibilidades de escolha. São restritivas, pois não admitem excepções e é nestas que podemos encontrar soluções criativas e novas para os problemas.
Exemplos: tudo, ninguém, nada, nenhum; não posso, não devo, tenho de...

(2) Eliminações (ou omissões) – graças a estes filtros, prestamos atenção de forma selectiva a certas dimensões da experiência original, ao mesmo tempo que excluímos outras. É como se apenas prestássemos atenção ao que nos beneficia. Ou seja, apenas percepcionamos aquilo que merece a nossa atenção em determinado momento e contexto, eliminando o que para nós é supérfluo.
Exemplos: “sou incapaz”, “não me respeitam”; “é melhor não dizer nada”, isto é muito mais difícil”, “isso é pior para ti”; “isto encanta-me”, “isso não se pode fazer”, “há que fazer qualquer coisa”...

(3) Distorções – É o processo pelo qual apresentamos uma mudança no modo como vivenciamos as nossas experiências sensoriais, assumindo a “realidade” de uma forma diferente daquela detectada pelos nossos canais sensoriais. Ou, dito de outra forma, tergiversamos a realidade segundo a nossa conveniência.
Exemplos: “O problema bloqueia-me”, “esta vida não tem sentido”, “o medo paralisa-me”; “O som da tua voz irrita-me”,; “sei muito bem o que estás a pensar”, “já sei o que vais dizer”; “não é correcto discutir com os outros”...

As perguntas pretendem desafiar cada um dos padrões/transgressões de linguagem. Ao fazê-lo é possível encontrar a informação perdida no processo de derivação desde a estrutura profunda até à estrutura de superfície. Isto é, podemos recuperar as partes que foram eliminadas desde o pensamento profundo até à sua verbalização. Consequentemente, ao identificar as distorções, omissões ou generalizações que a pessoa introduz como filtros limitadores do seu “mapa” (do seu modelo do mundo), o mediador pode com o seu questionamento alargar esse “modelo do mundo” e permitir a alteração da percepção sobre a experiência vivida. Este tipo de questionamento permite, ainda, que o mediador possibilite aos mediados que estes se apercebam das suas próprias “derivações”, levando-os a ter uma nova compreensão da realidade.

(continua) Publicado em Noticias Mediare de Fevereiro de 2015 Faça o aqui o Download da Noticias Mediare

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

When Stories Clash: Addressing conflict with Narrative Mediation




de Gerald Monk & John Winslade

"When Stories Clash Gerald Monk and John Winslade have written a series of books and articles on narrative conflict resolution. This one is intended to give practitioners an accessible window into the skills of narrative practice. In the stories that people tell about conflict, the relationship narrative is commonly shaped to fit the conflict story. But there are always other relationship stories that can be told."

Quando estive no Porto a 15 de Janeiro com a Mediare na MED`Talks @pop, prometi dar a indicação de alguns livros que para mim são relevantes. Este é um deles. Acompanha-me quase diariamente. Tem-me ajudado a moldar a minha prática e a transformá-la.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Programação Neurolinguística - PNL

A diferença que faz a diferença” - Aplicações em Mediação de Conflitos


Isabel Oliveira



Publicado em Noticias Mediare de Fevereiro de 2015


Parte I - apresentando a PNL

(…) temos mais percepção e somos mais influenciados pelas nossas percepções do que pensamos – por outras palavras, estamos constantemente envolvidos no dar e receber de um tipo de comunicação acerca da qual não sabemos nada, mas que desempenha um papel muito importante na determinação do nosso comportamento.” (Paul Watzlawick, In “A Realidade é real?”)

"A comunicação não é algo que aconteça na realidade, mas a realidade constrói-se na comunicação." (Xavier Guix, In “Nem eu me explico, nem tu me entendes”)


Quem trabalha no campo da resolução de conflitos compreende a necessidade de uma boa preparação antes de entrar para uma sala de mediação e intervir num conflito, exercendo o tão denominado papel de “facilitador da comunicação”. Para poder facilitar a comunicação, o mediador necessita de ser auto-consciente da sua própria forma de comunicar e, como diz Xavier Guix: "Embora para alguns essa coisa de comunicar seja tão simples como respirar, o certo é que se trata de um processo activo e complexo no qual intervêm, para já, processos semânticos, neurológicos, psicológicos, sociais e culturais" (In “Nem eu me explico, nem tu me entendes”). Quando comunicamos utilizamos todos os nossos canais de percepção, quer estejamos na posição de emissor, quer na posição de receptor. Através dos nossos canais de percepção preenchemos o contexto de conteúdos e significados, numa interacção perfeita em que o emissor é ao mesmo tempo receptor e adapta quase de forma automática a sua comunicação à do seu interlocutor, numa tentativa de constante aproximação.

Não é possível não comunicar” assume uma nova dimensão quando aplicamos à linguagem verbal e não-verbal uma nova conceptualização, que se foca nos processos neurológicos e semânticos. A Programação Neurolinguística (PNL) traz novas perspectivas sobre a comunicação intra e interpessoal.

Quando descobri a PNL, por volta de 2009, e fiz os dois níveis de formação (Practitioner e Master) estava ainda um pouco longe da sua introdução e adaptação ao meu trabalho como Mediadora de Conflitos (e formadora). Entendo a PNL, não como uma ciência, mas como um modelo de comunicação que nos permite descobrir como construímos os nossos pensamentos (a nossa experiência subjectiva) e nos ensina a trabalhar sobre eles e sobre os nossos comportamentos, de forma a produzir alterações positivas.

Denominação criada por Richard Bandler (matemático e perito em computação) e John Grinder (linguísta), a Programação Neurolinguística alicerça os seus fundamentos na linguística transformacional, na Gestalt, na ciberbética relacional e na neurofisiologia. Bandler e Grinder inspiraram-se em terapeutas como Fritz Perls, Virginia Satir, Milton Erikson, e em pensadores como Gregory Bateson. Observaram e modelaram as suas técnicas. Observando e estudando como eles sabiam fazer o que faziam e eram bem sucedidos, Bandler e Grinder descobriram que poderiam modelar e reproduzir, de forma padronizada, a sua forma de estar e fazer.

Quando se ouve falar de PNL, são naturais as observações de “maravilhamento” ou de “absoluto cepticismo”. Parece que a PNL se transformou, nas mãos de muitos, numa tecnologia de mercado, com modelos de “x passos” para tudo, desde conseguir sucesso, à excelência, ensinar vendedores a persuadir ou a vender a “banha da cobra”. Não parece ter sido este o ideal inicial da PNL.

Mas, afinal, como descrever o que é a PNL? O que é e para que serve? Podemos dividir o conceito em três segmentos (Definição traduzida de Carrión Lopez em 2010 In “Curso de Practitioner en PNL”, 6.ª Ed, Ediciones Obelisco, Barcelona):

PROGRAMAÇÃO: Termo que se refere aos processos que o nosso sistema sensorial (vista, ouvido, gosto, olfato e tacto ou cinestesia) utiliza para organizar as suas representações e, assim, criar as suas estratégias operativas;
NEURO: porque toda a acção ou conduta é resultado da actividade neurológica;
LINGUÍSTICA: já que essa actividade neurológica e a organização das estratégias operativas são exteriorizadas através da comunicação em geral e da linguagem em particular.

No fundo, a PNL identifica os padrões de pensamento e a forma como apreendemos ou percepcionamos a realidade e como comunicamos sobre ela, tentando perceber quais os processos que utilizamos para pensar, memorizar, narrar e agir nas mais diversas situações da vida, levando-nos ainda a perceber porque é que algumas pessoas são mais eficientes na sua comunicação, e de que forma, identificados os seus padrões, as podemos modelar.
Surge, assim, a análise dos padrões de linguagem, o Meta Modelo (Bandler e Grinder In “The Structure of Magic”), e a sua conexão com a estrutura profunda da experiência, de onde posteriormente surgem as ideias de sistema de representação e as sua submodalidades, estratégias, separação da intenção do comportamento; e técnicas como o reenquadramento, a ancoragem, a dissociação visual/cinestésica, o rapport.