terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Livros Recomendados - Implementing Restorative Practices in School (Thorsborne and Blood)

Implementing Restorative Practices in School


A Practical Guide to Transforming School Communities

Margareth Thorsborne and Peta Blood


"Restorative practice is a proven approach to discipline in schools that favours relationships over retribution, and has been shown to improve behaviour and enhance teaching and learning outcomes. However, in order for it to work, restorative practice needs a relational school culture. Implementing Restorative Practice in Schools explains what has to happen in a school in order for it to become truly restorative. Section 1 explains the potential of restorative practice in schools, describing the positive outcomes for students and teachers. It also outlines the measures that need to be in place in order to embed restorative practice. Section 2 examines the process of understanding and managing change, providing realistic and pragmatic guidance on the practical and emotional barriers that may be encountered. Finally, Section 3 provides in eight practical steps, strategic guidance for achieving a restorative culture that sticks. Featuring useful pro formas and templates, this book will be an indispensable guide for educators, administrators and school leaders in mainstream and specialist settings."




MEDIAMUS
tivemos a oportunidade de publicar o seguinte texto

Uma nova Proposta para a resolução de conflitos em contexto escolar
(este texto faz parte de um artigo sobre circulos restaurativos em contexto escolar)


Todos dizem que o rio é violento, Mas ninguém culpa as margens que o comprimem” (B. Brecht)


Actualmente escolas, professores e alunos são pressionados para obterem bons resultados em testes padronizados, aplicados de norte a sul do país, estabelecendo-se um ranking de mérito entre as escolas em função dos resultados obtidos pelos alunos nos chamados testes de aferição.
A pressão para cumprir com o planeado em termos de programa académico, parece deixar pouco tempo para gerir comportamentos de uma forma pedagógica, positiva e eficiente. Gerir emoções e comportamentos, no sentido de proporcionar uma aprendizagem para a sua transformação exige tempo.
Parece que “encher recptáculos de informação” se tornou mais importante do que a reflexão e a aprendizagem de competências sociais e emocionais.
Os conflitos em contexto escolar merecem ser olhados de uma forma educada e educadora, com vista não apenas á sua gestão e resolução, mas também à sua utilização como meio de aprendizagem de competências de resolução de problemas e de exercicio de uma cidadania reflexiva e responsável.
Consequentemente, a introdução de práticas restaurativas para lidar com comportamentos disruptivos, infracções disciplinares e até infracções mais graves, que ocorrem dentro do contexto escolar ou com os seus membros, torna-se na sociedade de hoje uma necessidade cada vez mais premente. Se quisermos pensar numa escola inclusiva, tolerante com as diferenças, responsável pela resolução dos seus problemas, promotora de uma cidadania activa, é urgente introduzir no seu seio meios de gestão e resolução de problemas que humanizem as pessoas e as cuidem, sem deixar de promover a defesa dos valores da comunidade e da reparação efectiva dos danos.
Neste contexto, juntamos à proposta de mediação entre pares, a introdução dos métodos de conversas em círculo e conversas restaurativas.


Disciplina e Punição: porquê e para quê uma opção restaurativa?
Trabalhar com procedimentos restaurativos é uma forma de estar e ser, que é igualmente exigente no cumprimento das normas de comportamento (estabelecimento de limites e de pressão para o seu cumprimento) e justo no que se refere a apoiar (cuidar) crianças e jovens em desenvolver comportamentos e competências socias que promovam relações interpessoais positivas e cooperativas e garantam uma convivência segura. (Thorsborne & Blood, 2013).1
Howard Zher (2007)2 chama a atenção para algumas razões pelas quais há problemas com os sistemas punitivos:
  • Existe o risco de que os infractores venham simplesmente a ficar zangados com aqueles que os punem. [A punição, traduzida na aplicação de uma sanção ou consequência negativa, “cria um clima de medo e o medo produz raiva e ressentimento” - nas palavras de Alfie Kohn (2000)3 ].
  • A ameaça da punição leva, muitas vezes, à negação da responsabilidade (invocando inocência, ou pura e simplesmente mentindo), a arranjar desculpas e justificações, ou mesmo a minimizar o dano causado (podem aguentar, ninguém se magoou).
  • O infractor não é encorajado a empatizar com a vitima, visto que não há um processo de aproximação.
  • A punição não vai até às causas do comportamento, não se debruça sobre a raiz do problema.4
Existem um sem número de estudos, bastante convincentes e fundamentados, que demonstram que a punição, por si só, é contraproducente porque não permite criar um clima de saudável relacionamento na comunidade escolar, produzindo antes um sentimento de desconexão e afastamento do ambiente escolar. O impacto deste sentimento de desconexão em algumas crianças e jovens pode levá-las a magorem-se a si mesmas ou a magoar outros, a assumir comportamentos de risco em que se põe a si e ao grupo em perigo.
Isto poderá ser mais comum em crianças que já vivem nas suas vidas múltiplas situações de stress ou trauma, sendo que a punição contribui para aumentar este stress, o que é bem evidente naquelas crianças que facilmente explodem e manifestam emoções de raiva e fúria quando de algum modo são desafiadas em função do seu comportamento.
Se o objectivo da punição é a mudança de comportamento, não parece que esta o consiga, aliás em algumas situações torna-o mais rígido e fixo. Talvez porque o objectivo da punição e dos sistemas retributivos é o de repor a norma violada, sanciona-se a pessoa que violou a norma que garante o funcionamento do grupo, da comunidade; ao invés dos sistemas restaurativos que focam o seu objectivo na reparação do dano causado à pessoa, na responsabilidade pelo comportamento e pelas consequências que este provocou no outro.
Esta assunção põe em confronto dois paradigmas, o da Justiça Retributiva e o da Justiça Restaurativa.


Justiça Retributiva
Justiça Restaurativa
Crimes e delitos são violações de leis/normas/regras que não foram cumpridas.
Crimes e delitos são violações das relações interpessoais: Quem foi magoado? De que forma?
A culpa deve ser atribuída: quem fez isto?
As obrigações devem ser reconhecidas: quais são estas?
A punição deve ser imposta: o que é que merecem?
Como pode o dano ser reparado?
Fig. Tabela daptada de Howard Zehr (2002)5
A justiça retributiva tende a isolar o ofensor/infractor de qualquer ligação ou contacto com aquele ou aqueles a quem causou dano, não proporcionando um espaço ou contexto de resolução de problemas entre eles. É o Estado ou a instituição que assume a responsabilidade da decisão sobre a sanção a ser aplicada.
Numa abordagem com base na justiça restaurativa para resolver o problema, ofensor e ofendido, agressor e vítima são envolvidos num processo de diálogo que explora o que aconteceu, que dano foi causado e em conjunto tomam decisões sobre como vão agir no futuro e o que é necessário que aconteça para reparar o dano causado (ainda que dentro dos limites impostos pelo quadro legislativo às suas decisões.
Citando Ted Wachtel, Presidente do International Institute for Restorative Practices:
Uma das principais suposições da nossa sociedade sobre a punição é a de que esta torna os ofensores responsáveis. No entanto, para um estudante ofensor (agressor) a punição é uma experiência passiva, que exige pouca ou nenhuma participação. Enquanto o professor ou o Director chamam a atenção, ralham e impõem a sanção, o estudante permanece em silêncio, ressentido com a figura de autoridade, a sentir-se zangado e como se ele fosse a vítima. O aluno/ofensor não pensa nas reais vítimas da sua agressão ou nos outros indivíduos que foram adversamente afectados pela sua conduta. Então, estamos a tornar este estudante responsável?
Fazer coisas a um estudante ofensor, apenas leva à sua alienação. Precisamos de fazer coisas com ele. Precisamos de o envolver num processo activo que o torne verdadeiramente responsável. Simultaneamente, queremos construir relações positivas entre o estudante e aqueles que foram afectados pelo seu comportamento.
(…) A abordagem restaurativa à disciplina social expande as nossas opções para além do tradicional continuum punitivo-permissivo.”6


1In. “a janela da disciplina social” de Ted Wachtel.
2In Thorsborne & Blood (2013), op. Cit. Pág. 24
3In Thorsborne & Blood (2013), op. Cit. Pág. 24
4Sobre esta questão, propomos a leitura da obra de Alfie Kohn (2006) Beyond Discipline: From Compliance to Community. ASCD, Alessandria.
5In Thorsborne & Blood (2013), op. Cit. Pág. 20
6Wachtel, Ted (1999) “Restoring Community in a Disconnected World” (adapted from “Restorative Justice in Everiday Life: Beyond the Formal Ritual,” a paper presented at the “Reshaping Australian Institutions Conference: restorative Justice and Civil Society,” The Australian National University, Canberra, February 16-18.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Parte III - Aplicando a PNL à Mediação.

Para se conhecer a si mesmo, é preciso ser conhecido pelo outro. E para ser conhecido pelo outro, primeiro há que conhecê-lo.”
Thomas Hora

Para poder usar de forma eficiente o metamodelo, é fundamental que o mediador estabeleça um bom rapport.
O rapport é um processo natural, uma sensação de conexão com o outro, uma ligação que faz com que as pessoas na sua interacção se sintam bem como se se compreendessem completamente e tivessem muitas coisas em comum. Podemos chamar-lhe rapport, empatia ou ser perceptivo, entrar em sintonia. A questão é que todos o fazemos, de forma consciente ou inconsciente. No fundo, entrar em rapport é encontrar-se com outra pessoa dentro do seu modelo de mundo.

Esta ligação ou conexão dá-se as vários níveis e implica “calibrar”, “sincronizar” e “dirigir”. Quando um “facilitador da comunicação” (In Ramos Mejía “Un mirar, un decir, un sentir sobre la mediación educativa”) tem dificuldades em estabelecer uma comunicação positiva e eficiente com outra pessoa, pode provocar o rapport, permitindo que o outro se sinta confortável e confiante consigo. O processo de rapport pode passar por vários elementos, as pistas de acesso ocular (o olhar), a fisiologia (a postura corporal), a voz (através do seu ritmo, volume e tom); a respiração e a linguagem. Adoptando uma semelhante postura corporal, um tom, ritmo ou volume de voz, respiração e linguagem (e não necessariamente com todos os elementos ao mesmo tempo), pode-se encontrar um nível de sincronia com a outra pessoa, à qual chamamos rapport.

Chegado a este ponto, o mediador pode “dirigir”, o que significa aqui que pode conduzir a outra pessoa a um estado emocional mais benéfico ou, simplesmente ajudá-la a modificar a sua forma de comunicar, tornando-a mais eficiente e adequada. O rapport dá um novo significado à escuta activa ou, pelo menos, mais alargado, abrindo um novo leque de opções ao “como” escutar activamente.

Para comunicar eficazmente, temos de perceber que somos todos diferentes na forma como apreendemos o mundo e utilizamos esse entendimento como guia para a comunicação com o outro.” Anthony Robbins

Compreender a forma de alguém comunicar implica compreender a forma como percepciona a realidade e comunica sobre ela. Um dos pilares que sustenta a PNL é o Modelo dos sistemas de representação. Diz Carrión Lopez, “Quaquer pensamento que passe pela nossa mente, qualquer ideia que apareça, qualquer recordação que evoquemos ou qualquer fantasia que imaginemo, tudo está construído na nossa mente como uma sequência ordenada de representações procedentes dos órgãos de percepção.” (In Ramos Mejía “Un mirar, un decir, un sentir sobre la mediación educativa” )
Os sistemas de representação referem-se às formas pelas quais assimilamos, armazenamos e codificamos a informação na nossa mente, através dos sentidos (visual, auditivo, cinestésico, olfativo, gustativo – VAKOG). A PNL pressupõe que tudo o que conhecemos, experimentamos, pensamos e sentimos é fruto das nossas representações internas, da forma como construímos a nossa experiência subjectiva a partir das percepções sensoriais. Para qualquer conduta, aprender, recordar, fazer algo, comunicar, utilizamos preferencialmente um desses sistemas sensoriais ou uma combinação entre eles. Daí que os sistemas de representação se podem identificar como:

Sistema de representação primário: é o sistema preferencial
Sistema orientador: sistema preferencial que orienta a informação para a mente consciente
Cinestesia: conjunto de ligações neurológicas entre diversos sistemas, operando simultaneamente.

Os Sistemas de representação apresentam algumas características diferenciadoras:
As pessoas visuais tendem a ver o mundo sob a forma de imagens, atingem maior sensação de poder penetrando na parte visual do cérebro, tendem a falar rapidamente, atribuem palavras às imagens, falam através de metáforas visuais, falam acerca de como as coisas lhes parecem, quais os padrões que vêem e se as coisas parecem brilhantes ou escuras.
As pessoas auditivas são selectivas nas palavras que utilizam, têm vozes mais sonantes, discurso mais lento e ritmado, comedido, são cuidadosas com o que dizem, dizem coisas como: “estou a ouvir o que está a dizer”, “algo no meu cérebro fez clique”.
As pessoas cinestésicas são mais lentas, reagem sobretudo a sensações, as suas vozes são mais profundas, utilizam metáforas para o mundo físico, estão sempre a “agarrar” algo “concreto”, as coisas são “pesadas” e “intensas” e precisam de “estar em contacto” com elas, dizem coisas como: “estou a tentar atingir uma resposta, mas ainda não a consegui agarrar”.

Cada pessoa é única. Mas quando conseguimos identificar qual é o seu sistema preferencial, damos um grande passo no sentido de saber como entrar no seu mundo, de melhor o perceber e de lhe dar a compreender que somos capazes de a perceber a um nível mais profundo: o seu “mapa” passa a fazer parte do nosso “mapa”.

Os sistemas de representação são como uma chave de um código secreto.
Anthony Robbins


A diferença que faz a diferença” em Mediação

O mediador, na sua actividade, tem de desenvolver um conjunto de capacidades pessoais que lhe permitam ser mais eficiente e proporcionar aos mediados uma experiência diferente onde a arte de comunicar e a pedagogia do diálogo para a resolução de problemas assumem um novo e mais importante papel. Na sua “caixa de ferramentas” pessoais “carregará a capacidade de gerar empatia, autenticidade e presença.

A empatia é a capacidade de estar com o outro, de sentir com o outro, “de ir ao encontro de outro indivíduo e de ver o mundo com os seus olhos e o seu coração” (Pink, D.H., 2009. “A Nova Inteligência”), a capacidade de o aceitar como ele é, dentro do seu mapa de valores e de convicções, sem pré-juízos. Entrar no seu mapa do mundo, seja através da sua linguagem, da sua fisiologia e/ou da sua respiração, compreendendo o seu sistema de representação preferencial e estabelecendo rapport.

Estar com o outro e estabelecer com ele uma relação empática implica “ser autêntico”, no sentido de ser congruente. E ser congruente é ser consciente do seu ser e do seu sentir e do modo como se comunica este “ser” e este “sentir” ao outro. Quando o mediador transmite incongruência, deixa de ser autêntico, despertando a desconfiança dos mediados.

Autenticidade e congruência implicam, assim, auto-confiança: “estou bem comigo, com quem eu sou; estou bem com a minha experiência, esta faz parte de mim e de quem eu sou”. Poder transmitir isto em mediação é o primeiro passo para uma boa gestão emocional do conflito. Para ser congruente, o mediador necessita de ter consciência do seu “modelo de mundo”, do seu “mapa”, da forma como percepciona a realidade e comunica sobre ela, de conhecer como modela e utiliza os seus sistemas de representação.

Para estar em mediação, o mediador precisa de ter “presença”, ou seja, estar consciente, atento, focado. Para o mediador, a presença determina a sua capacidade de se orientar no conflito, de saber como e quando agir, que “instrumentos” utilizar. É ser capaz de, em primeiro lugar, compreender o que se está a passar consigo, dentro de si. É ter a capacidade de se aceitar a si mesmo, para aceitar o outro.

A PNL, quando aplicada à mediação e à formação do Mediador, permite a este trabalhar o “foco”, a “auto-consciência”, a “comunicação”. Permite-lhe aprender a entrar num “estado” que lhe proporciona uma utilização mais eficiente dos “instrumentos” de que dispõe (potenciando as suas capacidades pessoais e técnicas).

Há um exercício de preparação que gosto de fazer antes de iniciar uma sessão de mediação. Adaptei-o a partir do texto de Judith DeLozier, “Mastery, new coding and systemic NLP”. Ajuda-me a manter um determinado estado de foco, alerta, congruência emocional, presença e empatia, que passam por manter a qualidade da minha respiração; a postura – fisiologia que permite manter a atenção e gerar empatia; as minhas convicções e representação do modelo, que permite obter um resultado positivo e que inclui um conjunto de valores e princípios da mediação e a linguagem adequada á sua representação.

Proponho-lhe, leitor, que me acompanhe nesta pequena e curta viagem e siga a minha voz: primeiro, estando sentado, coloque-se numa posição de desequilíbio /desconforto, coloque tensão nos ombros e permita que estes se aproximem das suas orelhas. Coloque-se numa típica posição de stress. Observe: como está a sua respiração? Encontra-se num estado que lhe trasmite conforto e lhe permite transmitir conforto a outro? Considera a sua fisiologia/postura própria para desempenhar a sua função de mediador? Como e onde está a sua atenção, o seu foco? Que crenças sobre como mediar e o que é ser mediador encontra em si nesta particular postura/estado?
Agora mude de posição, mova-se ligeiramente, talvez queira levantar-se e voltar a sentar-se. Encontre uma posição confortável e equilibrada para se sentar. Respire profundamente e observe o seu corpo, liberte-se de qualquer excesso de tensão que possa encontrar, respire naturalmente e repita as questões do parágrafo anterior.

Qual o estado/fisiologia mais adequado para conduzir uma sessão de mediação? Qual é a diferença que faz a diferença?

Publicado em Noticias Mediare de Fevereiro de 2015 Faça o aqui o Download da Noticias Mediare