segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Parte III - Aplicando a PNL à Mediação.

Para se conhecer a si mesmo, é preciso ser conhecido pelo outro. E para ser conhecido pelo outro, primeiro há que conhecê-lo.”
Thomas Hora

Para poder usar de forma eficiente o metamodelo, é fundamental que o mediador estabeleça um bom rapport.
O rapport é um processo natural, uma sensação de conexão com o outro, uma ligação que faz com que as pessoas na sua interacção se sintam bem como se se compreendessem completamente e tivessem muitas coisas em comum. Podemos chamar-lhe rapport, empatia ou ser perceptivo, entrar em sintonia. A questão é que todos o fazemos, de forma consciente ou inconsciente. No fundo, entrar em rapport é encontrar-se com outra pessoa dentro do seu modelo de mundo.

Esta ligação ou conexão dá-se as vários níveis e implica “calibrar”, “sincronizar” e “dirigir”. Quando um “facilitador da comunicação” (In Ramos Mejía “Un mirar, un decir, un sentir sobre la mediación educativa”) tem dificuldades em estabelecer uma comunicação positiva e eficiente com outra pessoa, pode provocar o rapport, permitindo que o outro se sinta confortável e confiante consigo. O processo de rapport pode passar por vários elementos, as pistas de acesso ocular (o olhar), a fisiologia (a postura corporal), a voz (através do seu ritmo, volume e tom); a respiração e a linguagem. Adoptando uma semelhante postura corporal, um tom, ritmo ou volume de voz, respiração e linguagem (e não necessariamente com todos os elementos ao mesmo tempo), pode-se encontrar um nível de sincronia com a outra pessoa, à qual chamamos rapport.

Chegado a este ponto, o mediador pode “dirigir”, o que significa aqui que pode conduzir a outra pessoa a um estado emocional mais benéfico ou, simplesmente ajudá-la a modificar a sua forma de comunicar, tornando-a mais eficiente e adequada. O rapport dá um novo significado à escuta activa ou, pelo menos, mais alargado, abrindo um novo leque de opções ao “como” escutar activamente.

Para comunicar eficazmente, temos de perceber que somos todos diferentes na forma como apreendemos o mundo e utilizamos esse entendimento como guia para a comunicação com o outro.” Anthony Robbins

Compreender a forma de alguém comunicar implica compreender a forma como percepciona a realidade e comunica sobre ela. Um dos pilares que sustenta a PNL é o Modelo dos sistemas de representação. Diz Carrión Lopez, “Quaquer pensamento que passe pela nossa mente, qualquer ideia que apareça, qualquer recordação que evoquemos ou qualquer fantasia que imaginemo, tudo está construído na nossa mente como uma sequência ordenada de representações procedentes dos órgãos de percepção.” (In Ramos Mejía “Un mirar, un decir, un sentir sobre la mediación educativa” )
Os sistemas de representação referem-se às formas pelas quais assimilamos, armazenamos e codificamos a informação na nossa mente, através dos sentidos (visual, auditivo, cinestésico, olfativo, gustativo – VAKOG). A PNL pressupõe que tudo o que conhecemos, experimentamos, pensamos e sentimos é fruto das nossas representações internas, da forma como construímos a nossa experiência subjectiva a partir das percepções sensoriais. Para qualquer conduta, aprender, recordar, fazer algo, comunicar, utilizamos preferencialmente um desses sistemas sensoriais ou uma combinação entre eles. Daí que os sistemas de representação se podem identificar como:

Sistema de representação primário: é o sistema preferencial
Sistema orientador: sistema preferencial que orienta a informação para a mente consciente
Cinestesia: conjunto de ligações neurológicas entre diversos sistemas, operando simultaneamente.

Os Sistemas de representação apresentam algumas características diferenciadoras:
As pessoas visuais tendem a ver o mundo sob a forma de imagens, atingem maior sensação de poder penetrando na parte visual do cérebro, tendem a falar rapidamente, atribuem palavras às imagens, falam através de metáforas visuais, falam acerca de como as coisas lhes parecem, quais os padrões que vêem e se as coisas parecem brilhantes ou escuras.
As pessoas auditivas são selectivas nas palavras que utilizam, têm vozes mais sonantes, discurso mais lento e ritmado, comedido, são cuidadosas com o que dizem, dizem coisas como: “estou a ouvir o que está a dizer”, “algo no meu cérebro fez clique”.
As pessoas cinestésicas são mais lentas, reagem sobretudo a sensações, as suas vozes são mais profundas, utilizam metáforas para o mundo físico, estão sempre a “agarrar” algo “concreto”, as coisas são “pesadas” e “intensas” e precisam de “estar em contacto” com elas, dizem coisas como: “estou a tentar atingir uma resposta, mas ainda não a consegui agarrar”.

Cada pessoa é única. Mas quando conseguimos identificar qual é o seu sistema preferencial, damos um grande passo no sentido de saber como entrar no seu mundo, de melhor o perceber e de lhe dar a compreender que somos capazes de a perceber a um nível mais profundo: o seu “mapa” passa a fazer parte do nosso “mapa”.

Os sistemas de representação são como uma chave de um código secreto.
Anthony Robbins


A diferença que faz a diferença” em Mediação

O mediador, na sua actividade, tem de desenvolver um conjunto de capacidades pessoais que lhe permitam ser mais eficiente e proporcionar aos mediados uma experiência diferente onde a arte de comunicar e a pedagogia do diálogo para a resolução de problemas assumem um novo e mais importante papel. Na sua “caixa de ferramentas” pessoais “carregará a capacidade de gerar empatia, autenticidade e presença.

A empatia é a capacidade de estar com o outro, de sentir com o outro, “de ir ao encontro de outro indivíduo e de ver o mundo com os seus olhos e o seu coração” (Pink, D.H., 2009. “A Nova Inteligência”), a capacidade de o aceitar como ele é, dentro do seu mapa de valores e de convicções, sem pré-juízos. Entrar no seu mapa do mundo, seja através da sua linguagem, da sua fisiologia e/ou da sua respiração, compreendendo o seu sistema de representação preferencial e estabelecendo rapport.

Estar com o outro e estabelecer com ele uma relação empática implica “ser autêntico”, no sentido de ser congruente. E ser congruente é ser consciente do seu ser e do seu sentir e do modo como se comunica este “ser” e este “sentir” ao outro. Quando o mediador transmite incongruência, deixa de ser autêntico, despertando a desconfiança dos mediados.

Autenticidade e congruência implicam, assim, auto-confiança: “estou bem comigo, com quem eu sou; estou bem com a minha experiência, esta faz parte de mim e de quem eu sou”. Poder transmitir isto em mediação é o primeiro passo para uma boa gestão emocional do conflito. Para ser congruente, o mediador necessita de ter consciência do seu “modelo de mundo”, do seu “mapa”, da forma como percepciona a realidade e comunica sobre ela, de conhecer como modela e utiliza os seus sistemas de representação.

Para estar em mediação, o mediador precisa de ter “presença”, ou seja, estar consciente, atento, focado. Para o mediador, a presença determina a sua capacidade de se orientar no conflito, de saber como e quando agir, que “instrumentos” utilizar. É ser capaz de, em primeiro lugar, compreender o que se está a passar consigo, dentro de si. É ter a capacidade de se aceitar a si mesmo, para aceitar o outro.

A PNL, quando aplicada à mediação e à formação do Mediador, permite a este trabalhar o “foco”, a “auto-consciência”, a “comunicação”. Permite-lhe aprender a entrar num “estado” que lhe proporciona uma utilização mais eficiente dos “instrumentos” de que dispõe (potenciando as suas capacidades pessoais e técnicas).

Há um exercício de preparação que gosto de fazer antes de iniciar uma sessão de mediação. Adaptei-o a partir do texto de Judith DeLozier, “Mastery, new coding and systemic NLP”. Ajuda-me a manter um determinado estado de foco, alerta, congruência emocional, presença e empatia, que passam por manter a qualidade da minha respiração; a postura – fisiologia que permite manter a atenção e gerar empatia; as minhas convicções e representação do modelo, que permite obter um resultado positivo e que inclui um conjunto de valores e princípios da mediação e a linguagem adequada á sua representação.

Proponho-lhe, leitor, que me acompanhe nesta pequena e curta viagem e siga a minha voz: primeiro, estando sentado, coloque-se numa posição de desequilíbio /desconforto, coloque tensão nos ombros e permita que estes se aproximem das suas orelhas. Coloque-se numa típica posição de stress. Observe: como está a sua respiração? Encontra-se num estado que lhe trasmite conforto e lhe permite transmitir conforto a outro? Considera a sua fisiologia/postura própria para desempenhar a sua função de mediador? Como e onde está a sua atenção, o seu foco? Que crenças sobre como mediar e o que é ser mediador encontra em si nesta particular postura/estado?
Agora mude de posição, mova-se ligeiramente, talvez queira levantar-se e voltar a sentar-se. Encontre uma posição confortável e equilibrada para se sentar. Respire profundamente e observe o seu corpo, liberte-se de qualquer excesso de tensão que possa encontrar, respire naturalmente e repita as questões do parágrafo anterior.

Qual o estado/fisiologia mais adequado para conduzir uma sessão de mediação? Qual é a diferença que faz a diferença?

Publicado em Noticias Mediare de Fevereiro de 2015 Faça o aqui o Download da Noticias Mediare