terça-feira, 1 de dezembro de 2015

(Re)Pensar a Prática da Mediação … em estilo de Reflexão

O Advogado na Mediação? … Pensando o profano no silêncio da escrita – parte 2

David A. Hoffman, num fabuloso artigo, “Paradoxes of Mediation” (publicado no Livro Bringing Peace into the Room) afirma o seguinte: “According to Zen Buddhism, one way enlightenment can be achieved is by holding two contradictory thoughts in the mind simultaneously. This, I have found, is more easily said than done. Perhaps I am handicapped in this endeavor by virtue of professional training: as a lawyer my mental functioning has shifted decidedly to the left brain. I know one lawyer-turned-mediator (or, as the joke goes, a recovering lawyer) who describes law school as a process in which the left brain circles around the right brain and eats it.
In this case, learning to practice mediation has presented me with the task of recovering the right-brain function, the place where creativity and nonlinear thinking flourish. Indeed, restoring the balance between the two hemispheres may be necessary to succeed at mediation because the work is inherently difficult, is multidimensional, and requires not only logic but inventiveness.” (2003:167)

Também eu “Advogada-transformada-Mediadora” ou “Advogada em recuperação” me confronto com este desafio. Formatada para pensar como Advogada e depois de mais de uma dezena de anos a praticar com base nessa formatação, começar a pensar como Mediadora de Conflitos é um exercício diário. 
A prática da Mediação exige trabalhar o conflito com uma diferente complexidade.
Aliás, Hoffman soma às capacidades que o mediador deve desenvolver para ser um mediador eficiente, as seguintes qualidades: alta tolerância à ambiguidade, um gozo especial em funcionar em multitarefa, e uma vontade inata para aceitar a possibilidade de a realidade estar repleta de paradoxos.

Significa isto, apenas, que ser Mediadora é tornar-se Mediadora, num processo contínuo de aprendizagem em que confrontamos os nossos próprios paradoxos.

A Mediação de conflitos é ao mesmo tempo uma ciência e uma arte (nas palavras de Donald T. Saposnek). 

Uma ciência que se baseia em diferentes áreas de conhecimento que permitem trabalhar de forma sistematizada os conflitos interpessoais, através de uma metodologia e um conjunto de princípios que atribuem uma lógica à prática da mediação.

Mas é também uma arte. The art of mediation consists of the intangible, spontaneous, flowing, unpredictable, intuitive aspects of the expertise. Art does not follow the rules of logic but operates more on intuition and feeling. Through the art lens, a problem is viewed holistically, creatively, systemically, and from numerous angles, and the parts are seen in their relationship to one another. One does not gain this view by breaking the problem into teachable steps; instead the view is developed organically. Art demands of the student an intuitive grasp, the gaining of impressions based on emotions, and then a conceptual integration”. (Saposnek, 2003:245)
É esta arte da mediação o seu espaço profano e intangível e, ao mesmo tempo, o espaço de encontros, de descobertas, de desenvolvimento, de escuta, de compaixão. Há uma frase que uso em formação, quando começando a difícil prática da mediação peço às minhas alunas para escutarem a sua intuição, para prestarem atenção às suas entranhas, pois a próxima pergunta, a orientação para o caminho a seguir virá de dentro de si, daquela especial sensação no estômago e no peito, que (por vezes) aperta a garganta.

Assim, o mediador terá de alterar a sua forma de pensar e refletir sobre o conflito, como refere Saposnek (2003:247), de um pensamento analítico, lógico, racional e linear e orientado para a tarefa, para um pensamento mais intuitivo, emocional, metafórico e até holístico. Adotando uma perspetiva sistémica, que o leva a perceber o conflito e os seus intervenientes respeitando as suas histórias, os seus papéis, os seus valores e os seus contextos. E não apenas como duas partes em oposição, em que de um lado estará a verdade, um certo e um errado, um direito que prevalece em detrimento de outro. 
O enquadramento da mediação é mais amplo e integrador.

Em comparação, o contexto judicial tende a reduzir a amplitude do conflito, a trabalhá-lo de uma forma linear num sistema de causa-efeito, onde o racional impera sobre o emocional, onde não há uma visão sistémica e integradora do conflito, antes se expurga dele tudo aquilo que os operadores do sistema judicial consideram que não deve fazer parte da sua análise e resolução.

Neste sentido, fácil é de perceber que mediadores e advogados trabalham em realidades paralelas. 
Mesmo quando trabalha num espaço de procura e construção de consenso, o advogado trabalha num espaço adversarial, em que apenas representa os interesses do seu cliente num enquadramento jurídico-legal. A mediadora não representa nenhum dos intervenientes no conflito, nem tem particular interesse na sua solução. O seu trabalho define-se, num espaço que é muito sagrado à mediação, pela liberdade das partes. Liberdade que se evidencia pela voluntariedade de usar a mediação de conflitos, até à liberdade de construir um compromisso sem imposição de terceiros.

Como tornar estas realidades paralelas em realidades interativas e inclusivas?
O caminho tem sido, até agora, o da judicialização da mediação, integrando-a nos processos judiciais, desde a área cível (as alterações ao Processo Civil, a Mediação nos Julgados de Paz) até à familiar (a Lei do divórcio e o novo processo tutelar cível). Ainda que a contragosto dos representantes dos advogados e sem que o sistema judicial esteja recetivo e, muito menos, convencido


Deixemos para uma Parte 3 a continuação da reflexão.