Contadores de Histórias

Vamos contar Histórias

Histórias que a vida tece (ou imagina). Contos do contar os dias. Narrativas de mediadores (ou de contadores de histórias). Afinal é de histórias que se fazem as relações, com as quais crescemos.






Era uma história de vizinhos.
Mediado - "Quando vinha para aqui hoje, nunca pensei que iria falar sobre as coisas de que falei."
Advogada - "sobre a sua vida pessoal?"
Mediado - "Sim...sobre a minha doença, o meu neto, as minhas dificuldades; enfim, sobre a minha vida".
Mediadora - "Por vezes, quando estamos em conflito, deixamos de ver o outro como pessoa. è importante que as pessoas se escutem, como pessoas com problemas, com uma vida como tantas outras pessoas, é importante que descubram de novo a humanidade do outro, para além do conflito. Só posso agradecer a confiança que depositou em mim e na mediação para falar das situações que marcam a sua vida".
Mediado - "Pois...é isso...por vezes esquecemos o que é mesmo importante."


Era uma história de grelos. Eu conto. tudo começou num "diz que disse", "que outros disseram" e como ficou magoada de ouvir que um amigo pudesse ter dito aquilo dela e da sua família. Como poderia ter sequer sonhado que aquele amigo se comportasse assim com eles, depois de tanto o terem ajudado. Do outro lado, "que não disse", "nem nunca poderia ter dito", que a amizade não se paga assim e que lhes está "grato por toda a vida". E em Mediação saiu acordo, com cláusula única: "A Sr.ª Maria Y aceita os esclarecimentos prestados pelo Sr. António X, desejando ambos manter a relação sadia de amizade que sempre tiveram e pela qual ambos se sentem gratos. Com este acordo, os mediados acordam pôr termo ao presente processo no que concerne às partes supra identificadas." E no fim, "Sr.ª mediadora, podemos abraçar-nos?" e "também lhe podemos dar um abraço a si?"
Moral da história: "nunca julgar o livro pela capa"





"Sr.ª Dr.ª, imagine que ele, sem mais nem p'ra quê, pegou na moto-serra e aos gritos de que nos ia matar e seus filhos disto e daquilo, desata a cortar as couves. Nós (eu e a minha mulher) ficámos com medo" - afirma um mediado. - "Isso é o que vai acontecer sempre que as tuas couves passarem para o que é meu!" - responde o outro mediado, visivelmente irritado. - "Ó Sr.ª Dr.ª as folhas das couves passaram um bocadinho a estrema"- Explica o primeiro. "Bem - diz a mediadora, de uma forma muito técnica - essas couves devem ser muito grandes." - "mais ó menos da sua altura" - responde de imediato o segundo mediado". ao que o primeiro acrescenta: "e são bem boas, são galegas". - "Pois, também eu" responde a Mediadora ... "tenho uma costela galega...quero dizer".
Moral da história: quando não tiveres nada para dizer, o melhor é ficar calada.




Num outro dia, numa outra hora, em qualquer outro lugar.
A mediação tinha chegado ao seu fim. Assinado o acordo, as partes e a mediadora cumprimentaram-se. A Mediadora agradeceu. "Obrigada por terem confiado no meu trabalho e no processo de mediação, pelo vosso esforço para esclarecerem as vossas posições e para se escutarem mutuamente"
A Sr.ª Maria ficou mais um pouco sentada, a mediadora aproximou-lhe a sua bengala. A Sr.ª Maria sorriu, pegou na mão da Mediadora e disse: "sabe Sr.ª Dr.ª, nota-se que é uma pessoa boa, tem boa alma. Já pode morrer em paz".
Moral da história: Há palavras que dão vida.


Era uma hora certa de um dia certo, num certo lugar, onde esta mediadora se encontrava a trabalhar. Os mediados, dois senhores de meia idade, com ar bem disposto, tagarelavam animadamente. Bom sinal, pensou a mediadora, parece que estão com vontade de falar. A Mediadora apresentou-se, cumprimentou-os e convidou-os a dirigirem-se para a sala de mediação. Assim fizeram, conversando  e rindo com alguma intimidade. E assim se sentaram, lado a lado, ombro com ombro, olhos nos olhos e a conversa mantinha-se animada. Passado um ou dois minutos, a mediadora disse: "Desculpem interrompê-los, os Senhores desejam que eu saia, para ficarem um pouco mais à vontade?" - "Não, não minha senhora, pode ficar, o que a gente tem para dizer não é segredo!", responde rapidamente o primeiro, - "e as conversas são sempre mais animadas na presença de uma senhora simpática", reforça o segundo. 
Moral da história: Há conflitos que dão boas conversas.